terça-feira, 8 de outubro de 2013

Livro Da Vida - Segunda Parte.

27 de outubro-2006, Dublin-Irlanda.
“...Em um dia, parece ter chovido mais que em todo um mês de inverno no Brasil. Quando cheguei aqui no hostel, estava encharcado e puto comigo mesmo já no primeiro momento. Menos mal que investi certo nessa mochila à prova d´água, minha primeira aquisição do ocidente.
O MADPACKERS hostel é localizado bem no coração da capital Irlandesa. Aos seus arredores há enormes mercados, lojas de conveniência, prédios residenciais, pubs e outros tantos albergues. A estação de ônibus, assim como a estação de trem são a poucos minutos daqui, e taxis...Bem,taxis são parte da cultura Irlandesa..estão absolutamente em todos os lugares. trafegando na cidade continuadamente, como se patrulhassem as ruas de Dublin. Não procurei por detalhes estatísticos ainda a respeito mas, eu poderia garantir que há pelo menos um taxi para cada cinco pessoas em Dublin.
Eu divido, no momento, o quarto com outras seis pessoas, sendo que há ao todo doze camas-beliche. Eu durmo na parte de baixo de um deles, as camas são todas numeradas com um travesseiro mole e um cobertor e lençol. O enorme aquecedor na parede já respondeu por todas as duvidas que tinha sobre a calefação nos países europeus. Eu acredito que agora lá fora esteja uns 5 graus mas a sensação aqui dentro do quarto é de no mínimo 25. Há pouco tempo atrás, um de meus “roomates” levantou-se apressadamente e despiu-se toda. Não tive tanta sorte de ver muito, pois a luz está apagada, mas ela estava ali, à minha frente, completamente nua. Uma naturalidade incompreensível por mim e acredito que por muitos ainda. Ela tirou toda a roupa, inclinou-se em direção ao “nosso” beliche e dobrou seus joelhos ficando em posição quase de súplica, botou suas roupas pra baixo da minha cama e lentamente subiu os três degraus de madeira até a cama acima da minha.
Como um bom Brasileiro, inicialmente  pensei que poderia ser um daqueles insinuantes convites, mas à medida que eu mexia na cama e levantava acintosamente para lhe chamar a atenção, descobri que a menina roncava no momento em que subira a escada e encostara a cabeça de volta ao travesseiro. Malditas europeias.
Na recepção do hostel, dois atendentes do turno da noite me chamaram a atenção. Miriam e Thomaz. A menina holandesa é muito atraente e esbanja energia no atendimento e na sua prestatividade  ( provavelmente vou lembrar dela antes de dormir) .O homem ( Acredito que russo)nos seus 30 anos de idade, é rude, seco. Desmotivado talvez pela sua aparência de sobrevivente de guerra, ele não faz questão nenhuma de ao menos olhar nos olhos dos hóspedes...com minha exceção. Parece me perseguir.
 Os seus olhos parecem ser cheios de ira e desconfiança. Ele me fitou e perguntou quanto tempo eu planejava ficar, respondi ironicamente que talvez uma vida inteira. Não houve sinal de satisfação por parte dele, nem humor. Já arrumei um “fã”, perfeito. Quando eu instalar meus interesses aqui, ele vai ser o primeiro a quem vou ensinar boas maneiras.
 Muito descontraída, Miriam foi a que sorriu e disse:
- E você é do Brasil. Isso? Planejando viver uma vida inteira na Irlanda com todo o calor que você tem em casa? Hahahaha! Voce só deve estar maluco.
Ela pegou meu passaporte e assentiu à fotografia de quase oito centímetros da segunda página.
- Ops... Com uma foto desse tamanho, não seria fácil,  pra vocês brasileiros falsificarem se quisessem ein?
- Eu diria que, no mundo em que vivemos, tudo é possível. – então sorri de volta a ela, aproveitando-me do seu sarcasmo. Safada...

O andar de baixo é subterrâneo, assim como 90 por centro da Europa. É dividido por um corredor longo de “lockers” , que são gaiolas de ferro divididas ,uma por uma, por cercas de arame de aço em quadrados finíssimos, onde os hóspedes deixam suas mochilas,bagagens e pertences .E,até o ponto mais quente do saguão, há um outro corredor longo á esquerda, acompanhando até o final da sala, com mesas, cadeiras e sempre muita gente. À esquerda no final desse corredor há grandes, enormes sofás e uma TV grande o suficiente para a sala. Uma mesa de snooker de uma lado, uma mesa de ping-pong do outro e finalmente...uma máquina de cerveja enlatada.
Na Irlanda há uma lei muito severa sobre a compra de álcool em super- mercados e off-licenses ( que são sempre ou parte separada de um mercado ou um estabelecimento especializado quase ou somente de bebidas alcoólicas ). Pode-se ser adquirido somente até ás 22 horas. Nem um minuto sequer a mais.
Esse final de tarde quando cheguei, bem em frente á porta de entrada do hostel, haviam cinco pessoas completamente tomadas pela mágica força do amigo álcool. Não fosse meu ceticismo por lendas e,pelo fato de que não eram anões, com certeza acreditaria também em duendes. Todas elas estavam vestidas em verde, os três homens com chapeis pontudos com trevos de quatro folas espalhados da ponta ás abas, e bundas de plástico escrito em Gaelic “ BEIJE MINHA BUNDA”  . As mulheres em sapatos e botas verdes, bolsas e justas camisas com dizeres “ ME BEIJE, SOU IRLANDESA”. Todos falavam alto, ao mesmo tempo. Os copos de plástico balançando em uma frenética dança de gestos, as garrafas de Smirnoff e Baccardi  ao chão, enroladas em sacos de papel. Passei por eles, me olharam e assentiram erguendo os copos. Mais tarde eu iria conhecer todos eles...
Sobre isso eu pretendo escrever amanhã, porque, finalmente a banda marcial de roncos cessou. Com sorte, dormirei três horas antes que venham o pessoal da limpeza aos quartos.
Eu paguei por três noites e aqui estou, minhas expectativas estão mesmo voltadas ao dia de amanha, que é quando tudo para mim começa.”


As páginas deixadas à Tony era trechos do que ele e, do que todas as pessoas que ele encontrava, escreviam em seu chamado Livro da vida. Era tachado por ele mesmo como uma versão aberta e moderna de uma espécie de diário, onde todos poderiam ler e compartilhar experiências. Antes de durmir, ou enquanto sentia os ares frios de Bray, Anthony sempre escrevia. E quando não se era possível, imaginava em silêncio o que poderia ser escrito.Na opinião de Tony, o que era vivido, era para ser de alguma forma compartilhado, assim como o que era escrito era para ser armazenado e  também para sempre ser lembrado .- “Nós todos somos monstros, poetas, pensadores, cientistas. A diferença entre muitos dos anônimos gênios e demônios de hoje, para Aristóteles, Einstein e Hitler, é que na época existiam valores, pecados,indecência e a crueldade era mais explícita. O simples fato de pensar já seria condenado. Hoje, quando pensar e manifestar-se diante do que acredita é permitido, ninguém mais se importa. No fim então, pensar no futuro já não vale nada”.

Das pessoas que Anthony conhecia, ele escrevia a respeito. Se uma história fosse contada, ele iria pedir “permissão” para ser ,por ele mesmo, escrita. Então ele adaptaria para uma breve história, diálogo, comentário ou até, música sua. A forma com que os textos eram escritos eram sempre diferentes mas ele nunca deixava perder em palavras o que deveria ser deixado. Em várias páginas, do maço que Tony carregava com ele ao redor do mundo, liam-se trechos de histórias verdadeiras, significativas. De pessoas reais, do mundo real. As páginas, não eram apenas a prova, mas também a certeza de que a vida sempre continua, igual aos filmes e contos, mas que os fatos e personagens mudam a cada segundo, sem rumo ou plano.
Em meio ás páginas soltas, havia diversos cartões postais, selos,tickets concertos de bandas de rock, festivais, de ônibus, trem, excursões,e muitos papéis de chocolate e de cigarro...da Europa inteira.Haviam também diversas folhas de revistas e recortes de jornais e, em um desses, a notícia que mais percorreu o mundo nos últimos anos.
Nas capas do “Irish Daily Mail” e “Independent” de Dublin, a capa era a mesma. Uma gigante placa de pó branco espalhado por toda a estrada, misturando-se com a neve, fazendo parecer cem vezes maior de quanto realmente era. O caminhão parado de lado no meio e a picape de Anthony capotada no acostamento, coberta por quase cem kilos de cocaína, pura. Os dizerem eram “ You Finally got f....!” ( Você finalmente se Fo...!). Nos tabloides, a foto era a de Anthony inconsciente ainda dentro do carro, com as palavras “ You Are Dead  now, finally!” No jornal Herald a matéria das primeiras páginas foi escrita pelo jornalista Connor O´Brien, o homem que perseguia por quase quatro anos a quadrilha mais procurada na Europa.
“ Nessa madrugada de 23 de Dezembro, o maior presente de Natal de toda uma nação foi dado antecipadamente. Um dos maiores traficantes do mundo foi pego em um acidente fatal em provável fuga de Dublin, espalhando por toda a avenida um inacreditável volume de cocaína a serem distribuídos ao resto do mundo. Droga que vinha ( digamos agora assim) instalando-se como parte da nossa cultura, destruindo a vida de milhares de jovens Irlandeses.
 A picape foi arremessada para fora da pista por um caminhão que vinha trafegando normalmente na pista contrária, o motorista do caminhão, O querido dubliner Keith Mccormick ( havia uma foto de quando foi escolhido melhor empregado do ano), morreu na hora. O carro do suspeito girou várias vezes antes de colidir com as rodas dianteiras do caminhão.  O motorista da picape era um dos mais procurados pela Interpol, Guarda e a polícia de pelo menos outros nove países da união europeia. Adrien lacroiux, “the frog”, como era chamado por nós da imprensa, era o maior traficante em escala mundial que já se pôde ouvir nessa ultima década. Foram anos, estabelecido e vivendo em harmonia em Dublin,sobre os olhos de todos nós, nunca havia sido pego. Brincou com nossa polícia, como se fossem muppets. Os controlou, assim como controlou as nossas crianças, jovens, famílias. Condenando todo o país a morte precoce.
Mas então veio a força maior ,que parecia ter abandonado seu povo e nos deu a chance de ainda em vida, ver um demônio e parte de sua obra serem destruídas. O corpo de Lacrouix ainda não havia sido retirado do carro antes do fechamento da matéria. Muito cuidado está sendo tomado na remoção da droga e de algum possível armamento escondidos na picape. As ferragens ainda estavam sendo lentamente removidas e explosivos estavam também sendo procurados. Felizmente, para todos nós e aqueles que já perderam entes queridos por culpa das drogas, de acordo com os paramédicos, não há possibilidade nenhuma de vida para ele....”

Nem que fosse passados cinquenta anos o olhar especulativo de Anthony desapareceria. Não havia interesse nenhum em piscar quaisquer uns dos olhos, eram vivos e fixos. Como se encarasse um fantasma, o homem ainda segurando uma das folhas na mão, concentrava-se também em seu olhar. “ Dois anos. E o filho da puta não mostra nenhum sinal de medo.”
- Tony, certo? Esse é a forma que lhe chamam?
Anthony assentiu com a cabeça. Pronunciando ao mesmo tempo algumas palavras embaralhadas, deixando “friends” como a única realmente nítida.
- Amigos? Hahaha. Entendi. Amigos o chamam assim?
Ele esperou Tony assentir novamente e continuou.- Hehe, certo. Desculpe Tony, me chame de Carl. Infelizmente fomos apresentados só agora.
Carl estava com o maço de papéis na mão, selecionando as páginas. Pegou uma e levantou da cama, parecendo saudavelmente perfeito. Recostou-se na mesinha ao lado da cabeceira de Anthony, e afastou a cortina  que cobria o resto da visão sobre a cama . Olhando para Anthony debilitado, Carl sorriu e disse:
- Uma pena também eu ter de lhe dar más notícias na primeira vez que nos encontramos pessoalmente.  Os olhos agora aflitos de Anthony seguiram Carl, enquanto ele se dirigia ao armário do quarto. De lá retirou um casaco de lã, onde escondia em um dos bolsos uma seringa preenchida com um líquido branco-escuro.
-Uma pena maior ainda, é você não lembrar de mim Anthony. Não sou seu amigo.


Tudo tinha sido ensaiado, Anthony fora o tempo todo o principal coadjuvante do circo que já existia , mas que nem mesmo sabia a respeito. “Adrien...” E automaticamente, as memórias ao pronunciar silenciosamente para si mesmo, o nome de seu “Irmão Francês”, vieram rápido e cortantes. Carl continuava lendo as páginas, desta vez mais rápido e pulando partes, sempre rindo sarcasticamente cada vez que pegava uma outra. Já havia lido todas elas, sabia da suposta troca de pessoas feitas pela imprensa. Tony  não demonstrava nenhum sinal de desespero ou espanto, apenas duas coisas continuavam em seu foco agora: A seringa ,que balançava com as palavras de seus próprios textos, nervosamente a poucos centímetros dele e na forma que ela teria de fazer para sair dali. Mas isso ele já sabia como, ele foi mesmo preparado para o espetáculo.

 O seu corpo na cama continuava da mesma forma em que fora posto logo após o acidente, há quase dois anos atrás.
 Lembrava de si mesmo agora, lembrava do acidente ter mesmo acontecido mas não reconhecia a droga escondida no carro. Um pensamento atraía o outro rapidamente. Quando Carl disse o nome dela, Anthony não lembrava de tê-lo mesmo o escutado. O seu nome vinha de dentro dele agora e a imagem destorcida dela em seus sonhos já não era mais despercebida pelos efeitos do coma. A necessidade de falar o nome dela lhe percorreu todo o caminho do estomago até sua garganta, fazendo todos os seus órgãos vitais tremerem e contraírem, até ser finalmente expelido. A imagem boa de Sarah havia sido apenas fragmentos de parte do que sonhava.  Estava associada também a seu maior pesadelo, mas ela sumia com frequência, perdendo o foco, desvanecendo e transformando-se apenas em escuridão à seus olhos. Havia, entretanto, o motivo pelo qual acordara, e Anthony sabia que sempre fora ela.

Absolutamente tudo transcorrera de errado. Precisava agora encontrá-la,ela corria perigo. Precisava de toda e qualquer memória de volta.

Parecendo seguro, Tony ergueu lentamente o braço direito e removeu a máscara que lhe transmitia oxigênio e, com um longo suspiro sentiu seus pulmões serem realmente preenchidos de oxigênio “puro” de novo. O fez outras tantas vezes, rapidamente, com o propósito óbvio de sentir vida circular, que não fosse por iniciativa de máquinas. Através do nivelamento do lençol que o cobria, era possível notar uma significante perca de peso também. Anthony sentia dores agora que antes não eram percebidas por seu inconsciente, tentando distrair-se delas,mentalmente ele concentrava-se em sentir tudo apropriadamente, braços e pernas continuavam paralisados. Iniciava-se o processo de controle do pânico. "Se você conseguir ter você mesmo sobre controle, quando certamente não é mais possível, então você poderá mudar tudo. Não só o resultado de uma ação, mas tudo. Inclusive você mesmo." Anthony acalmava sua interna e incontrolável angústia com ações psíquicas rápidas, enquanto meditava forças em alongamentos de seus músculos e nervos. Ele precisaria sentir o sangue puncionar mais forte e acompanhar a tensão que aumentava.
 Procurava sentir todas as agulhas, onde estariam o espetando, quais lugares pareciam doer se os tentassem mexer... A língua, ainda anestesiada e recompondo-se da morbidade, deslizava a procura de dentes ainda em sua boca, os dedos dos pés por sua vez, mexiam nervosamente em busca de cada um deles mesmos. Anthony olhou para Carl vindo em sua direção e fez o sinal de positivo com o polegar direito curvado, do mesmo jeito que o filho morto de seu colega de quarto de hospital, Charles Anderson ,fazia.


Anthony lembrou quem Carl era.  Mais uma vez, ele não teria escolha.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

O Livro da vida- Primeira Parte

Desde o princípio do verão europeu de 2009 que venho escrevendo essas metáforas, breves histórias, contos e argumentos. Esse material todo que tinha, foi devidamente traduzido do Inglês para o Portugûes ( minha intenção seria na verdade manter o inglês original) e depois de pesquisar opiniões de amigos, também mencionados no livro, e motivação vinda através de muitos outros que já passaram por minha vida,  foi criada uma história fictícia para tais.
Fictícia em sua história mas real na sua essência, Sendo que alguns fatores sobre a cultura e comportamento de diversas nacionalidades, opiniões políticas ou religiosas possam ser contraditórios, por parte das diferentes experiências que cada um dos leitores já possam ter tido e, é claro, por parte da opinião própria.
O nome dos personagens são em parte, provenientes de pessoas reais que vim a conhecer nos meus quase cinco anos vivendo em Dublin. no entanto, suas características, ideologias e ações foram criadas e adotadas por mim para o andamento do romance. De nenhuma forma, nem eu ou quaisquer dos nomes correspondentes a personagens, tem alguma associação com a história contada no Livro.

"O livro da vida" é um romance que intitula a si mesmo pelo acaso de tudo que parece ser surreal e incompreensível, mas que,de algum modo, mesmo que ainda sendo tarde, vai ser sempre lembrado e entendido. A cada semana, um pedaço dessa história será publicado. Agradeço por todos que lerem e que deixarem seus comentários.

Um abraço e boa leitura à todos.

Jardel Machado.

O Livro Da vida.





“Então...É assim que tudo termina.”

A sua última frase definitivamente não seria mais uma pergunta. Nos infinitos cinco segundos restantes antes do impacto, um sossego e inexplicável aceitação o tomaram. Ele sabia que não existiria dor, que seria tudo muito rápido. Anthony fez dos seus últimos pensamentos, uma tentativa de conduzir tudo o que sentiu de bom, deixando no ar o que ele gostaria que durasse pra sempre, que fosse lembrado.

O tempo nunca o fora aliado, nunca passava, entretanto duraria para sempre. As estradas não eram as mesmas, os caminhos que, levavam a outros diversos caminhos, nunca tinham um desfecho. As ruas eram seguidas de maneira contrária, o frio já não era só a depressão europeia, o sol já parecia não ser tão forte e irritante.
Mas ele havia sentido tudo aquilo tarde demais, assim como todas as outras coisas que não deveriam ter sido consideradas por ele como forma de adaptação. E quando novamente o reinício teve seu parecer e o arrependimento finalmente o aliviara, a incerteza de sua transição tomava a frente em suas contraditórias idealizações. Anthony sabia que seria de alguma forma punido, por algum motivo, parecia que tinha escrito para si mesmo. - Independente da forma que acredite que a vida funcione, tudo o que começa, acaba. Com final bom ou ruim,merecido ou não -  E o tempo passa na vida real,e termina, às vezes bem como uma história, e essa era a parte que Anthony acreditava que nunca existiria, na história que criara pra si mesmo.

                                                                                                                                                                     
  Entre o nublado e escuro de seus olhos fechados, sonhos foram o único meio de exercício à seu cérebro, parado por quase dois anos. Os mesmos sonhos, as mesmas imagens de um filme mudo e suas cenas contínuas, o mesmo pesadelo. Como se tudo fosse rebobinado de novo e de novo em seu cérebro, assim ficava a única parte de sua vida que fora guardada. A Parte que  fora  reservada para o aquele momento, para que nenhuma memória a respeito dos seus últimos atos, fosse nunca dissipada.
O sonho seguia

“ Não,não e não! Mas é sim. Aconteceu então hum? Finalmente fucking happened!.- E Tony ria nervosamente das conversas que tinha consigo mesmo, enquanto ainda olhava para a pistola 9 mm que jogara no assento a seu lado. Tremendo os lábios desesperadamente e acelerando ainda mais a picape ,Anthony continuava o seu diálogo:
- Quando foi mesmo que comecei isso?  Quando começou!!?? - Balançava a cabeça para todos os lados em desaprovação da resposta que daria a si mesmo:
- Foi quando você a conheceu Anthony. Todos os seus ideais, objetivos, todos fora. Por culpa dela  - A voz  ia diminuindo e desaparecendo, à medida que seu choro aumentava e lhe causava soluços altos e contínuos.
- Não. A culpa é minha-. Pensava sempre por fim.
Assistia a si mesmo observar suas mãos segurando a direção, suadas. Os olhos no espelho, a contemplação do rosário em volta dele e a cruz, com Jesus Cristo em Prata, voltada para ele, balançando sempre na vertical, representando absolutamente nada diante do seu ceticismo. O sonho, entretanto, lhe proporcionava a sensação real de tudo.- Anthony alucinava,mesmo que seu corpo em condições reais,permanecia imóvel, expelindo apenas através do suor toda sua angústia e a amargura-  A adrenalina subia, a verdadeira razão por que sempre sorria de tudo lhe dava ás costas, instantaneamente uma enorme comoção tomava conta de seu foco na estrada e pra onde estava realmente indo.Ele sentia todos os espasmos, que eram notáveis em suas perna esquerda tremulante. Câimbras, pânico e o medo, que parecia ser antes impossível de ser sentido, revelavam-lhe a verdade de todas as coisas, em poucos segundos, como por ele mesmo sempre foi dito.  A revelação vinha no momento em que fora desligado dos seus pensamentos.
Uma luz tão forte, que o impedia de abrir os olhos emanava e de repente, tudo desaparecia. Todas as pessoas que Anthony conhecera passavam agora a voltar á sua mente, absolutamente todos. Ninguém falava nada, eram apenas sorrisos a fitá-lo. Sua mãe era a primeira a vir, o pegava pela mão e o guiava pausadamente sobre corredor nenhum, num caminho que não existia e o silêncio de tudo mais naquela hora bastava. Meg estava do mesmo jeito em que ele gostava de vê-la, com o cabelo solto, deixando alguns cachos caírem de forma bagunçada sobre o canto de seus olhos, quando ele a olhava, parecia escutar sua voz, mesmo quando nenhuns dos lábios mexiam. Tentava falar, mas não conseguia , sua mãe sinalizava dizendo que não era necessário e apontava em sua volta. Olhando ao arredor ele via os amigos imaginários de infância, alguns em forma de criança, outros adultos como ele.Amigos, donos de bares, atendentes de cassino,pessoas que conhecera nos trens,metros. Onde estavam haviam palcos como nos festivais que estivera, com bandas de épocas passadas,  mulheres com quem estivera, amigos também falecidos... Todos passavam pela mente de Tony, no ambiente da paz eterna, como lhe foi ensinado em vida. Onde seria do jeito que sempre esperou ser. Mas o sonho de Anthony, a medida que continuava, revelava o início de um interminável pesadelo. Ainda que um desafio aos princípios de sua natureza, o que continuava era um presságio do que Anthony causaria a si mesmo. Um aviso que, como outrora, havia sido ignorado. Por ter sido por ele reconhecido apenas como mais um sinal.

Fazendo-se demérito ás suas constantes avaliações sobre coincidências e acasos, Anthony estava tão perturbado que nem fez questão de associar o mau tempo com as seguintes eprevisíveis cenas catastróficas de filmes em situação como aquela. “Os gritos dela era ouvidos abafados, quando eu bati a porta bruscamente,ainda podia ouvi-los dentro de mim. Oh deus me desculpe. Não tive escolha” com os lábios trêmulos, ele continuava repetindo a si mesmo a última frase que pensava em escrever com suas mãos ainda sujas de sangue. Ele agora precisava encontrar Sarah a tempo, antes que...
 Depois de alcançar uma parte da highway, o ponteiro já passava dos 130 km/h e uma acentuada curva iniciava á esquerda. As montanhas ainda cobertas em parte pela neve tampavam a vista de quem via descendo pela highway. Com a noite chuvosa, o temporal de neve vindo rapidamente do Reino unido e a lua minguante, quase invisível, ficavam praticamente impossível de se ver ou ouvir qualquer outro carro na estrada.
Era antevéspera de Natal e havia pouco tráfego terrestre. Motivo qual Keith Mcormick estava fazendo sua última entrega antes de deixar a empresa para qual trabalhava. Keith tinha quarenta e dois anos e estava casado desde os vinte.Começou como o pai, logo aos 12 anos já ajudando nas entregas aos arredores de Galway . Aos 15 estava empregado oficialmente pelo governo Irlandês, num momento em que o país mais necessitava de ajuda e força Professional. Mudou-se para Dublin, e começou a trabalhar em transportadoras responsáveis por entrega de frango às maiores cidades da Irlanda.. Todas as manhãs, Keith seguia a mesma rotina de acordar ás cinco da manhã, tomar banho, café e começar as entregas. Alguns pares de anos apenas se passaram e Keith tornou-se um dos principais motoristas de sua empresa. Passou a ganhar muito mais dinheiro, os mais altos honorários que se podia ganhar na categoria, mas era sempre escalado para fazer as mais distantes e importantes entregas, fora da cidade onde morava e onde conheceu sua esposa, Chin Yan.  Fez seu trabalho honestamente por mais de 20 anos (se orgulhava disso) e agora estava aguardando para o final do início do dia  mais feliz de sua vida. Tinha guardado dinheiro suficiente com sua esposa para abrir um restaurante chinês com ela, cuja família chinesa já morava em Dublin há mais de dez anos.
“ Eu nem acredito nisso Keith”- Falou sua esposa pelo celular poucos minutos antes.
“Mas pode mesmo acreditar Hon. Falei com eles lá da fábrica, faço essa entrega e posso já me retirar de minhas obrigações.”- Keith estava tão empolgado quanto ela.
“ Eu,..ai amor, eu estou tão feliz. Esperamos tanto por isso, tanto sacrifício. Eu prometo que vou ser a melhor gerente que você já viu em um restaurante.- e ela soltou uma risadinha em meio á um princípio de choro.
“ Bem, não teria escolha, ou teria? Olha que contrato outra chinesinha pra trabalhar comigo.- E Keith sorrira rápido para certificá-la que ele estava brincando.
Houve uma pausa.
“ Amor, já lhe contei sobre a lendária pedra chinesa em cima dos bagos dos maridos Irlandeses?”
Keith prontamente segurou seus testículos para protege-los das palavras ameaçadoras a eles.
“ Você sabe que eu te amo”- tentou desdenhar.
“ Keith- E ela começava a falar docemente de novo- Venha com calma, dirija com cuidado, está chovando ae, não está?”
“ Sim amor, bastante. Mas a estrada está calma, em menos de cinco horas estamos juntos novamente, agora do jeito que foi planejado.
“ Te amo.”
“ Te amo mais- Keith disse orgulhoso- “ até mais, beijo. Minha bateria está acabando.”
“ Beijo meu amor. Vem com Deus.
“ Sempre estarei com ele”. E o telefone de Keith Mcormick ficava mudo pra sempre.



 Anthony não havia ainda perdido os sentidos, mas seus olhos não piscavam e nem mais conseguia falar consigo mesmo. Diante dele, só a torrencial chuva, e a escuridão que se aproximava mais rapidamente de sua realidade.
Anthony começava a virar em alta velocidade, quando os faróis altos do caminhão apareceram. Foi como um milagre. Instantaneamente havia ficado sóbrio de novo, como 
forma de castigo, em sua mais perfeita lucidez, para que assistisse a tudo. Como o vidro estava completamente embaçado, Anthony considerou finalmente a velocidade que estava e descartou a possibilidade de freio. A sensível direção hidráulica não era sua favorita, assim como a picape não era sua. Em meio ao estrondoso barulho da chuva e a buzina do caminhão, tentou ser guiado apenas por seu instinto, ainda que desfavorável. Cientemente foi tirando o pé do acelerador e indo para o lado contrário da curva, até onde conseguiria enxergar a cabine do caminhão pelo retrovisor e finalmente poderia freiar bruscamente e tentar trazer o carro de volta á pista. Mas o caminhão tinha dois eixos e Keith Mcormick, ansioso pelo reinicio de sua nova vida, tinha esquecido de verificar o sistema pneumático dos freios pela primeira vez.. O vazamento de uma das válvulas foi o suficiente para comprometer todo o andamento de seu planejado último percurso.
  - Fuck!!!!- Keith estremeceu com seu próprio grito e começou a perder o controle do caminhão. O que seguiu foi uma dança rápida e dilacerante dos dois carros. A neve ainda sendo derretida pela chuva favoreceu para que a picape de Anthony escorrega-se antes de conseguir trazer o carro de volta à pista. Ele ameaçou girar três vezes, entre a pista e barragem do outro lado, ,já não conseguindo mais distinguir em que direção estava, firmava-se a direção e esperava atingir, pelo menos, as pequenas paredes de concreto que dividiam a pista. Mas o caminhão foi o que bateu primeiro nas divisórias. Com o impacto, Keith teve seu corpo deslocado bruscamente contra a janela, sendo trazido de volta pelo cinto de segurança que o pendurava em seu assento. Os estilhaços de vidro já tinham lhe perfurado todo, antes mesmo que ele pudesse sentir seu corpo ser esmagado pela própria cabine do caminhão, que continuava a andar por entre o concreto e o canteiro do meio da pista. Anthony não via mais nada á essa altura. A sua picape finalmente parara de girar e estacionava logo abaixo das rodas dianteiras do caminhão.
 Cinco longos segundos. Antes, Anthony olhou mais uma vez para a cruz, que já não balançava mais, e finalmente entendeu tudo.

 Deitado, com os olhos fechados, fixos ao teto, ele frequentemente sonhava com o mesmo sonho.

  Nas noites de frio no entanto, mesmo com seus olhos ainda fechados, Tony sabia que era ela puxando o cobertor até seu pescoço suado. Mentalmente ele a visualizava deixando o quarto ,falando alguma coisa que ele não conseguia entender, fechando a porta e partindo...todas as noites.

Na madrugada de 11 de janeiro Tony lentamente despertou. Com o rosto encharcado, como de costume àquela hora da noite,sentindo-se mais leve, fraco e imobilizado. Tony sentiu sua respiração de novo. Ele virou o rosto em direção à janela e viu a constante e fina neve que caìa lá fora, proporcionando ainda a ilusão de que o acidente ocorrera apenas algumas horas atrás. Tentou levantar o braço pra alcançar o parapeito da janela e sentiu que não podia, aquele não era seu quarto, havia outras duas camas, na altura e estilo da dele, as paredes eram brancas sem nenhum cartaz ou risco. Os sentidos voltavam lentamente, ruídos de aparelhos e vozes que viam de outros lugares, sons de elevadores,portas se abrindo e fechando,roncos de motores,buzinas,sirenes...
Na cama ao seu lado havia um homem perto dos seus 50 anos, o observando. Com um sorriso preparado no rosto disse:
- Isso que eu chamo de sono,Tony.
Ele escutou, mas não conseguia responder. O sufoco constante parecia ter engolido sua língua,assim como qualquer outro som que pudesse sair de sua boca. Seu cérebro no entanto, funcionava incontrolavelmente, em disparada. Ele entendeu onde estava.
-Não precisa falar nada agora. –O homem ainda calmamente disse- Eu estou aqui quase há tanto tempo quanto você. Quando Sarah veio lhe visitar, na única vez que pôde ( houve um mero desdenho e ironia na observação) , ela me disse que sabia que um dia você iria acordar. O que me motivou ainda mais a esperar por esse momento – ele virou-se para erguer o colchão da cabeceira suficiente para puxar um maço de papéis debaixo dele, deixando –os numa coffee table entre as duas camas.
- Ela disse que você saberia o que são. Bastaria eu ler algumas páginas pra você. Tem uma aqui que inclusive vou pegar pra mim, espero que não se importe. Ah, mas eu vou ler essa pra você também. Bem quando espero que lembre quem eu sou.

O silêncio daquela depressão gelada nos anos em que passara na Europa permitiu a Anthony certa evolução de seus sentidos. As palavras de seu colega de quarto estouravam em seus ouvidos da mesma forma com que foram intencionadas. O perigo fora sentido antes mesmo de Anthony poder lembrar como era, ao menos senti-lo. Mas não havia tempo para isso agora, e ele sabia. Precisava das páginas, depois... Teria de fugir do hospital.