segunda-feira, 7 de outubro de 2013

O Livro da vida- Primeira Parte

Desde o princípio do verão europeu de 2009 que venho escrevendo essas metáforas, breves histórias, contos e argumentos. Esse material todo que tinha, foi devidamente traduzido do Inglês para o Portugûes ( minha intenção seria na verdade manter o inglês original) e depois de pesquisar opiniões de amigos, também mencionados no livro, e motivação vinda através de muitos outros que já passaram por minha vida,  foi criada uma história fictícia para tais.
Fictícia em sua história mas real na sua essência, Sendo que alguns fatores sobre a cultura e comportamento de diversas nacionalidades, opiniões políticas ou religiosas possam ser contraditórios, por parte das diferentes experiências que cada um dos leitores já possam ter tido e, é claro, por parte da opinião própria.
O nome dos personagens são em parte, provenientes de pessoas reais que vim a conhecer nos meus quase cinco anos vivendo em Dublin. no entanto, suas características, ideologias e ações foram criadas e adotadas por mim para o andamento do romance. De nenhuma forma, nem eu ou quaisquer dos nomes correspondentes a personagens, tem alguma associação com a história contada no Livro.

"O livro da vida" é um romance que intitula a si mesmo pelo acaso de tudo que parece ser surreal e incompreensível, mas que,de algum modo, mesmo que ainda sendo tarde, vai ser sempre lembrado e entendido. A cada semana, um pedaço dessa história será publicado. Agradeço por todos que lerem e que deixarem seus comentários.

Um abraço e boa leitura à todos.

Jardel Machado.

O Livro Da vida.





“Então...É assim que tudo termina.”

A sua última frase definitivamente não seria mais uma pergunta. Nos infinitos cinco segundos restantes antes do impacto, um sossego e inexplicável aceitação o tomaram. Ele sabia que não existiria dor, que seria tudo muito rápido. Anthony fez dos seus últimos pensamentos, uma tentativa de conduzir tudo o que sentiu de bom, deixando no ar o que ele gostaria que durasse pra sempre, que fosse lembrado.

O tempo nunca o fora aliado, nunca passava, entretanto duraria para sempre. As estradas não eram as mesmas, os caminhos que, levavam a outros diversos caminhos, nunca tinham um desfecho. As ruas eram seguidas de maneira contrária, o frio já não era só a depressão europeia, o sol já parecia não ser tão forte e irritante.
Mas ele havia sentido tudo aquilo tarde demais, assim como todas as outras coisas que não deveriam ter sido consideradas por ele como forma de adaptação. E quando novamente o reinício teve seu parecer e o arrependimento finalmente o aliviara, a incerteza de sua transição tomava a frente em suas contraditórias idealizações. Anthony sabia que seria de alguma forma punido, por algum motivo, parecia que tinha escrito para si mesmo. - Independente da forma que acredite que a vida funcione, tudo o que começa, acaba. Com final bom ou ruim,merecido ou não -  E o tempo passa na vida real,e termina, às vezes bem como uma história, e essa era a parte que Anthony acreditava que nunca existiria, na história que criara pra si mesmo.

                                                                                                                                                                     
  Entre o nublado e escuro de seus olhos fechados, sonhos foram o único meio de exercício à seu cérebro, parado por quase dois anos. Os mesmos sonhos, as mesmas imagens de um filme mudo e suas cenas contínuas, o mesmo pesadelo. Como se tudo fosse rebobinado de novo e de novo em seu cérebro, assim ficava a única parte de sua vida que fora guardada. A Parte que  fora  reservada para o aquele momento, para que nenhuma memória a respeito dos seus últimos atos, fosse nunca dissipada.
O sonho seguia

“ Não,não e não! Mas é sim. Aconteceu então hum? Finalmente fucking happened!.- E Tony ria nervosamente das conversas que tinha consigo mesmo, enquanto ainda olhava para a pistola 9 mm que jogara no assento a seu lado. Tremendo os lábios desesperadamente e acelerando ainda mais a picape ,Anthony continuava o seu diálogo:
- Quando foi mesmo que comecei isso?  Quando começou!!?? - Balançava a cabeça para todos os lados em desaprovação da resposta que daria a si mesmo:
- Foi quando você a conheceu Anthony. Todos os seus ideais, objetivos, todos fora. Por culpa dela  - A voz  ia diminuindo e desaparecendo, à medida que seu choro aumentava e lhe causava soluços altos e contínuos.
- Não. A culpa é minha-. Pensava sempre por fim.
Assistia a si mesmo observar suas mãos segurando a direção, suadas. Os olhos no espelho, a contemplação do rosário em volta dele e a cruz, com Jesus Cristo em Prata, voltada para ele, balançando sempre na vertical, representando absolutamente nada diante do seu ceticismo. O sonho, entretanto, lhe proporcionava a sensação real de tudo.- Anthony alucinava,mesmo que seu corpo em condições reais,permanecia imóvel, expelindo apenas através do suor toda sua angústia e a amargura-  A adrenalina subia, a verdadeira razão por que sempre sorria de tudo lhe dava ás costas, instantaneamente uma enorme comoção tomava conta de seu foco na estrada e pra onde estava realmente indo.Ele sentia todos os espasmos, que eram notáveis em suas perna esquerda tremulante. Câimbras, pânico e o medo, que parecia ser antes impossível de ser sentido, revelavam-lhe a verdade de todas as coisas, em poucos segundos, como por ele mesmo sempre foi dito.  A revelação vinha no momento em que fora desligado dos seus pensamentos.
Uma luz tão forte, que o impedia de abrir os olhos emanava e de repente, tudo desaparecia. Todas as pessoas que Anthony conhecera passavam agora a voltar á sua mente, absolutamente todos. Ninguém falava nada, eram apenas sorrisos a fitá-lo. Sua mãe era a primeira a vir, o pegava pela mão e o guiava pausadamente sobre corredor nenhum, num caminho que não existia e o silêncio de tudo mais naquela hora bastava. Meg estava do mesmo jeito em que ele gostava de vê-la, com o cabelo solto, deixando alguns cachos caírem de forma bagunçada sobre o canto de seus olhos, quando ele a olhava, parecia escutar sua voz, mesmo quando nenhuns dos lábios mexiam. Tentava falar, mas não conseguia , sua mãe sinalizava dizendo que não era necessário e apontava em sua volta. Olhando ao arredor ele via os amigos imaginários de infância, alguns em forma de criança, outros adultos como ele.Amigos, donos de bares, atendentes de cassino,pessoas que conhecera nos trens,metros. Onde estavam haviam palcos como nos festivais que estivera, com bandas de épocas passadas,  mulheres com quem estivera, amigos também falecidos... Todos passavam pela mente de Tony, no ambiente da paz eterna, como lhe foi ensinado em vida. Onde seria do jeito que sempre esperou ser. Mas o sonho de Anthony, a medida que continuava, revelava o início de um interminável pesadelo. Ainda que um desafio aos princípios de sua natureza, o que continuava era um presságio do que Anthony causaria a si mesmo. Um aviso que, como outrora, havia sido ignorado. Por ter sido por ele reconhecido apenas como mais um sinal.

Fazendo-se demérito ás suas constantes avaliações sobre coincidências e acasos, Anthony estava tão perturbado que nem fez questão de associar o mau tempo com as seguintes eprevisíveis cenas catastróficas de filmes em situação como aquela. “Os gritos dela era ouvidos abafados, quando eu bati a porta bruscamente,ainda podia ouvi-los dentro de mim. Oh deus me desculpe. Não tive escolha” com os lábios trêmulos, ele continuava repetindo a si mesmo a última frase que pensava em escrever com suas mãos ainda sujas de sangue. Ele agora precisava encontrar Sarah a tempo, antes que...
 Depois de alcançar uma parte da highway, o ponteiro já passava dos 130 km/h e uma acentuada curva iniciava á esquerda. As montanhas ainda cobertas em parte pela neve tampavam a vista de quem via descendo pela highway. Com a noite chuvosa, o temporal de neve vindo rapidamente do Reino unido e a lua minguante, quase invisível, ficavam praticamente impossível de se ver ou ouvir qualquer outro carro na estrada.
Era antevéspera de Natal e havia pouco tráfego terrestre. Motivo qual Keith Mcormick estava fazendo sua última entrega antes de deixar a empresa para qual trabalhava. Keith tinha quarenta e dois anos e estava casado desde os vinte.Começou como o pai, logo aos 12 anos já ajudando nas entregas aos arredores de Galway . Aos 15 estava empregado oficialmente pelo governo Irlandês, num momento em que o país mais necessitava de ajuda e força Professional. Mudou-se para Dublin, e começou a trabalhar em transportadoras responsáveis por entrega de frango às maiores cidades da Irlanda.. Todas as manhãs, Keith seguia a mesma rotina de acordar ás cinco da manhã, tomar banho, café e começar as entregas. Alguns pares de anos apenas se passaram e Keith tornou-se um dos principais motoristas de sua empresa. Passou a ganhar muito mais dinheiro, os mais altos honorários que se podia ganhar na categoria, mas era sempre escalado para fazer as mais distantes e importantes entregas, fora da cidade onde morava e onde conheceu sua esposa, Chin Yan.  Fez seu trabalho honestamente por mais de 20 anos (se orgulhava disso) e agora estava aguardando para o final do início do dia  mais feliz de sua vida. Tinha guardado dinheiro suficiente com sua esposa para abrir um restaurante chinês com ela, cuja família chinesa já morava em Dublin há mais de dez anos.
“ Eu nem acredito nisso Keith”- Falou sua esposa pelo celular poucos minutos antes.
“Mas pode mesmo acreditar Hon. Falei com eles lá da fábrica, faço essa entrega e posso já me retirar de minhas obrigações.”- Keith estava tão empolgado quanto ela.
“ Eu,..ai amor, eu estou tão feliz. Esperamos tanto por isso, tanto sacrifício. Eu prometo que vou ser a melhor gerente que você já viu em um restaurante.- e ela soltou uma risadinha em meio á um princípio de choro.
“ Bem, não teria escolha, ou teria? Olha que contrato outra chinesinha pra trabalhar comigo.- E Keith sorrira rápido para certificá-la que ele estava brincando.
Houve uma pausa.
“ Amor, já lhe contei sobre a lendária pedra chinesa em cima dos bagos dos maridos Irlandeses?”
Keith prontamente segurou seus testículos para protege-los das palavras ameaçadoras a eles.
“ Você sabe que eu te amo”- tentou desdenhar.
“ Keith- E ela começava a falar docemente de novo- Venha com calma, dirija com cuidado, está chovando ae, não está?”
“ Sim amor, bastante. Mas a estrada está calma, em menos de cinco horas estamos juntos novamente, agora do jeito que foi planejado.
“ Te amo.”
“ Te amo mais- Keith disse orgulhoso- “ até mais, beijo. Minha bateria está acabando.”
“ Beijo meu amor. Vem com Deus.
“ Sempre estarei com ele”. E o telefone de Keith Mcormick ficava mudo pra sempre.



 Anthony não havia ainda perdido os sentidos, mas seus olhos não piscavam e nem mais conseguia falar consigo mesmo. Diante dele, só a torrencial chuva, e a escuridão que se aproximava mais rapidamente de sua realidade.
Anthony começava a virar em alta velocidade, quando os faróis altos do caminhão apareceram. Foi como um milagre. Instantaneamente havia ficado sóbrio de novo, como 
forma de castigo, em sua mais perfeita lucidez, para que assistisse a tudo. Como o vidro estava completamente embaçado, Anthony considerou finalmente a velocidade que estava e descartou a possibilidade de freio. A sensível direção hidráulica não era sua favorita, assim como a picape não era sua. Em meio ao estrondoso barulho da chuva e a buzina do caminhão, tentou ser guiado apenas por seu instinto, ainda que desfavorável. Cientemente foi tirando o pé do acelerador e indo para o lado contrário da curva, até onde conseguiria enxergar a cabine do caminhão pelo retrovisor e finalmente poderia freiar bruscamente e tentar trazer o carro de volta á pista. Mas o caminhão tinha dois eixos e Keith Mcormick, ansioso pelo reinicio de sua nova vida, tinha esquecido de verificar o sistema pneumático dos freios pela primeira vez.. O vazamento de uma das válvulas foi o suficiente para comprometer todo o andamento de seu planejado último percurso.
  - Fuck!!!!- Keith estremeceu com seu próprio grito e começou a perder o controle do caminhão. O que seguiu foi uma dança rápida e dilacerante dos dois carros. A neve ainda sendo derretida pela chuva favoreceu para que a picape de Anthony escorrega-se antes de conseguir trazer o carro de volta à pista. Ele ameaçou girar três vezes, entre a pista e barragem do outro lado, ,já não conseguindo mais distinguir em que direção estava, firmava-se a direção e esperava atingir, pelo menos, as pequenas paredes de concreto que dividiam a pista. Mas o caminhão foi o que bateu primeiro nas divisórias. Com o impacto, Keith teve seu corpo deslocado bruscamente contra a janela, sendo trazido de volta pelo cinto de segurança que o pendurava em seu assento. Os estilhaços de vidro já tinham lhe perfurado todo, antes mesmo que ele pudesse sentir seu corpo ser esmagado pela própria cabine do caminhão, que continuava a andar por entre o concreto e o canteiro do meio da pista. Anthony não via mais nada á essa altura. A sua picape finalmente parara de girar e estacionava logo abaixo das rodas dianteiras do caminhão.
 Cinco longos segundos. Antes, Anthony olhou mais uma vez para a cruz, que já não balançava mais, e finalmente entendeu tudo.

 Deitado, com os olhos fechados, fixos ao teto, ele frequentemente sonhava com o mesmo sonho.

  Nas noites de frio no entanto, mesmo com seus olhos ainda fechados, Tony sabia que era ela puxando o cobertor até seu pescoço suado. Mentalmente ele a visualizava deixando o quarto ,falando alguma coisa que ele não conseguia entender, fechando a porta e partindo...todas as noites.

Na madrugada de 11 de janeiro Tony lentamente despertou. Com o rosto encharcado, como de costume àquela hora da noite,sentindo-se mais leve, fraco e imobilizado. Tony sentiu sua respiração de novo. Ele virou o rosto em direção à janela e viu a constante e fina neve que caìa lá fora, proporcionando ainda a ilusão de que o acidente ocorrera apenas algumas horas atrás. Tentou levantar o braço pra alcançar o parapeito da janela e sentiu que não podia, aquele não era seu quarto, havia outras duas camas, na altura e estilo da dele, as paredes eram brancas sem nenhum cartaz ou risco. Os sentidos voltavam lentamente, ruídos de aparelhos e vozes que viam de outros lugares, sons de elevadores,portas se abrindo e fechando,roncos de motores,buzinas,sirenes...
Na cama ao seu lado havia um homem perto dos seus 50 anos, o observando. Com um sorriso preparado no rosto disse:
- Isso que eu chamo de sono,Tony.
Ele escutou, mas não conseguia responder. O sufoco constante parecia ter engolido sua língua,assim como qualquer outro som que pudesse sair de sua boca. Seu cérebro no entanto, funcionava incontrolavelmente, em disparada. Ele entendeu onde estava.
-Não precisa falar nada agora. –O homem ainda calmamente disse- Eu estou aqui quase há tanto tempo quanto você. Quando Sarah veio lhe visitar, na única vez que pôde ( houve um mero desdenho e ironia na observação) , ela me disse que sabia que um dia você iria acordar. O que me motivou ainda mais a esperar por esse momento – ele virou-se para erguer o colchão da cabeceira suficiente para puxar um maço de papéis debaixo dele, deixando –os numa coffee table entre as duas camas.
- Ela disse que você saberia o que são. Bastaria eu ler algumas páginas pra você. Tem uma aqui que inclusive vou pegar pra mim, espero que não se importe. Ah, mas eu vou ler essa pra você também. Bem quando espero que lembre quem eu sou.

O silêncio daquela depressão gelada nos anos em que passara na Europa permitiu a Anthony certa evolução de seus sentidos. As palavras de seu colega de quarto estouravam em seus ouvidos da mesma forma com que foram intencionadas. O perigo fora sentido antes mesmo de Anthony poder lembrar como era, ao menos senti-lo. Mas não havia tempo para isso agora, e ele sabia. Precisava das páginas, depois... Teria de fugir do hospital.








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