Fictícia em sua história mas real na sua essência, Sendo que alguns fatores sobre a cultura e comportamento de diversas nacionalidades, opiniões políticas ou religiosas possam ser contraditórios, por parte das diferentes experiências que cada um dos leitores já possam ter tido e, é claro, por parte da opinião própria.
O nome dos personagens são em parte, provenientes de pessoas reais que vim a conhecer nos meus quase cinco anos vivendo em Dublin. no entanto, suas características, ideologias e ações foram criadas e adotadas por mim para o andamento do romance. De nenhuma forma, nem eu ou quaisquer dos nomes correspondentes a personagens, tem alguma associação com a história contada no Livro.
"O livro da vida" é um romance que intitula a si mesmo pelo acaso de tudo que parece ser surreal e incompreensível, mas que,de algum modo, mesmo que ainda sendo tarde, vai ser sempre lembrado e entendido. A cada semana, um pedaço dessa história será publicado. Agradeço por todos que lerem e que deixarem seus comentários.
Um abraço e boa leitura à todos.
Jardel Machado.
O Livro Da vida.
“Então...É
assim que tudo termina.”
A sua última
frase definitivamente não seria mais uma pergunta. Nos infinitos cinco segundos
restantes antes do impacto, um sossego e inexplicável aceitação o tomaram. Ele
sabia que não existiria dor, que seria tudo muito rápido. Anthony fez dos seus
últimos pensamentos, uma tentativa de conduzir tudo o que sentiu de bom,
deixando no ar o que ele gostaria que durasse pra sempre, que fosse lembrado.
O tempo nunca
o fora aliado, nunca passava, entretanto duraria para sempre. As estradas não
eram as mesmas, os caminhos que, levavam a outros diversos caminhos, nunca
tinham um desfecho. As ruas eram seguidas de maneira contrária, o frio já não era
só a depressão europeia, o sol já parecia não ser tão forte e irritante.
Mas ele havia
sentido tudo aquilo tarde demais, assim como todas as outras coisas que não deveriam
ter sido consideradas por ele como forma de adaptação. E quando novamente o
reinício teve seu parecer e o arrependimento finalmente o aliviara, a incerteza
de sua transição tomava a frente em suas contraditórias idealizações. Anthony
sabia que seria de alguma forma punido, por algum motivo, parecia que tinha
escrito para si mesmo. - Independente
da forma que acredite que a vida funcione, tudo o que começa, acaba. Com final
bom ou ruim,merecido ou não - E o tempo passa na vida real,e termina, às
vezes bem como uma história, e essa era a parte que Anthony acreditava que nunca
existiria, na história que criara pra si mesmo.
Entre o nublado e escuro de seus olhos
fechados, sonhos foram o único meio de exercício à seu cérebro, parado por
quase dois anos. Os mesmos sonhos, as mesmas imagens de um filme mudo e suas
cenas contínuas, o mesmo pesadelo. Como se tudo fosse rebobinado de novo e de
novo em seu cérebro, assim ficava a única parte de sua vida que fora guardada. A
Parte que fora reservada para o aquele momento, para que
nenhuma memória a respeito dos seus últimos atos, fosse nunca dissipada.
O sonho
seguia
“ Não,não e
não! Mas é sim. Aconteceu então hum? Finalmente fucking happened!.- E Tony ria
nervosamente das conversas que tinha consigo mesmo, enquanto ainda olhava para
a pistola 9 mm que jogara no assento a seu lado. Tremendo os lábios
desesperadamente e acelerando ainda mais a picape ,Anthony continuava o seu diálogo:
- Quando foi
mesmo que comecei isso? Quando
começou!!?? - Balançava a cabeça para todos os lados em desaprovação da
resposta que daria a si mesmo:
- Foi quando
você a conheceu Anthony. Todos os seus ideais, objetivos, todos fora. Por culpa
dela - A voz ia diminuindo e desaparecendo, à medida que
seu choro aumentava e lhe causava soluços altos e contínuos.
- Não. A
culpa é minha-. Pensava sempre por fim.
Assistia a si
mesmo observar suas mãos segurando a direção, suadas. Os olhos no espelho, a
contemplação do rosário em volta dele e a cruz, com Jesus Cristo em Prata,
voltada para ele, balançando sempre na vertical, representando absolutamente
nada diante do seu ceticismo. O sonho, entretanto, lhe proporcionava a sensação
real de tudo.- Anthony alucinava,mesmo que seu corpo em condições reais,permanecia
imóvel, expelindo apenas através do suor toda sua angústia e a amargura- A adrenalina subia, a verdadeira razão por que
sempre sorria de tudo lhe dava ás costas, instantaneamente uma enorme comoção
tomava conta de seu foco na estrada e pra onde estava realmente indo.Ele sentia
todos os espasmos, que eram notáveis em suas perna esquerda tremulante. Câimbras,
pânico e o medo, que parecia ser antes impossível de ser sentido, revelavam-lhe
a verdade de todas as coisas, em poucos segundos, como por ele mesmo sempre foi
dito. A revelação vinha no momento em
que fora desligado dos seus pensamentos.
Uma luz tão
forte, que o impedia de abrir os olhos emanava e de repente, tudo desaparecia.
Todas as pessoas que Anthony conhecera passavam agora a voltar á sua mente, absolutamente
todos. Ninguém falava nada, eram apenas sorrisos a fitá-lo. Sua mãe era a
primeira a vir, o pegava pela mão e o guiava pausadamente sobre corredor nenhum,
num caminho que não existia e o silêncio de tudo mais naquela hora bastava. Meg
estava do mesmo jeito em que ele gostava de vê-la, com o cabelo solto, deixando
alguns cachos caírem de forma bagunçada sobre o canto de seus olhos, quando ele
a olhava, parecia escutar sua voz, mesmo quando nenhuns dos lábios mexiam.
Tentava falar, mas não conseguia , sua mãe sinalizava dizendo que não era
necessário e apontava em sua volta. Olhando ao arredor ele via os amigos
imaginários de infância, alguns em forma de criança, outros adultos como ele.Amigos,
donos de bares, atendentes de cassino,pessoas que conhecera nos trens,metros. Onde
estavam haviam palcos como nos festivais que estivera, com bandas de épocas
passadas, mulheres com quem estivera,
amigos também falecidos... Todos passavam pela mente de Tony, no ambiente da
paz eterna, como lhe foi ensinado em vida. Onde seria do jeito que sempre esperou
ser. Mas o sonho de Anthony, a medida que continuava, revelava o início de um
interminável pesadelo. Ainda que um desafio aos princípios de sua natureza, o
que continuava era um presságio do que Anthony causaria a si mesmo. Um aviso
que, como outrora, havia sido ignorado. Por ter sido por ele reconhecido apenas
como mais um sinal.
Fazendo-se
demérito ás suas constantes avaliações sobre coincidências e acasos, Anthony
estava tão perturbado que nem fez questão de associar o mau tempo com as seguintes
eprevisíveis cenas catastróficas de filmes em situação como aquela. “Os
gritos dela era ouvidos abafados, quando eu bati a porta bruscamente,ainda
podia ouvi-los dentro de mim. Oh deus me desculpe. Não tive escolha” com os lábios trêmulos, ele continuava
repetindo a si mesmo a última frase que pensava em escrever com suas mãos ainda
sujas de sangue. Ele agora precisava encontrar Sarah a tempo, antes que...
Depois de alcançar uma parte da highway, o ponteiro
já passava dos 130 km/h e uma acentuada curva iniciava á esquerda. As montanhas
ainda cobertas em parte pela neve tampavam a vista de quem via descendo pela
highway. Com a noite chuvosa, o temporal de neve vindo rapidamente do Reino
unido e a lua minguante, quase invisível, ficavam praticamente impossível de se
ver ou ouvir qualquer outro carro na estrada.
Era antevéspera
de Natal e havia pouco tráfego terrestre. Motivo qual Keith Mcormick estava
fazendo sua última entrega antes de deixar a empresa para qual trabalhava. Keith
tinha quarenta e dois anos e estava casado desde os vinte.Começou como o pai,
logo aos 12 anos já ajudando nas entregas aos arredores de Galway . Aos 15
estava empregado oficialmente pelo governo Irlandês, num momento em que o país
mais necessitava de ajuda e força Professional. Mudou-se para Dublin, e começou
a trabalhar em transportadoras responsáveis por entrega de frango às maiores
cidades da Irlanda.. Todas as manhãs, Keith seguia a mesma rotina de acordar ás
cinco da manhã, tomar banho, café e começar as entregas. Alguns pares de anos
apenas se passaram e Keith tornou-se um dos principais motoristas de sua
empresa. Passou a ganhar muito mais dinheiro, os mais altos honorários que se
podia ganhar na categoria, mas era sempre escalado para fazer as mais distantes
e importantes entregas, fora da cidade onde morava e onde conheceu sua esposa,
Chin Yan. Fez seu trabalho honestamente
por mais de 20 anos (se orgulhava disso) e agora estava aguardando para o final
do início do dia mais feliz de sua vida.
Tinha guardado dinheiro suficiente com sua esposa para abrir um restaurante
chinês com ela, cuja família chinesa já morava em Dublin há mais de dez anos.
“ Eu nem
acredito nisso Keith”- Falou sua esposa pelo celular poucos minutos antes.
“Mas pode
mesmo acreditar Hon. Falei com eles lá da fábrica, faço essa entrega e posso já
me retirar de minhas obrigações.”- Keith estava tão empolgado quanto ela.
“ Eu,..ai
amor, eu estou tão feliz. Esperamos tanto por isso, tanto sacrifício. Eu
prometo que vou ser a melhor gerente que você já viu em um restaurante.- e ela
soltou uma risadinha em meio á um princípio de choro.
“ Bem, não
teria escolha, ou teria? Olha que contrato outra chinesinha pra trabalhar
comigo.- E Keith sorrira rápido para certificá-la que ele estava brincando.
Houve uma
pausa.
“ Amor, já
lhe contei sobre a lendária pedra chinesa em cima dos bagos dos maridos
Irlandeses?”
Keith
prontamente segurou seus testículos para protege-los das palavras ameaçadoras a
eles.
“ Você sabe
que eu te amo”- tentou desdenhar.
“ Keith- E
ela começava a falar docemente de novo- Venha com calma, dirija com cuidado,
está chovando ae, não está?”
“ Sim amor,
bastante. Mas a estrada está calma, em menos de cinco horas estamos juntos
novamente, agora do jeito que foi planejado.
“ Te amo.”
“ Te amo
mais- Keith disse orgulhoso- “ até mais, beijo. Minha bateria está acabando.”
“ Beijo meu
amor. Vem com Deus.
“ Sempre
estarei com ele”. E o telefone de Keith Mcormick ficava mudo pra sempre.
Anthony não havia ainda perdido os sentidos,
mas seus olhos não piscavam e nem mais conseguia falar consigo mesmo. Diante
dele, só a torrencial chuva, e a escuridão que se aproximava mais rapidamente
de sua realidade.
Anthony
começava a virar em alta velocidade, quando os faróis altos do caminhão apareceram.
Foi como um milagre. Instantaneamente havia ficado sóbrio de novo, como
forma de
castigo, em sua mais perfeita lucidez, para que assistisse a tudo. Como o vidro
estava completamente embaçado, Anthony considerou finalmente a velocidade que
estava e descartou a possibilidade de freio. A sensível direção hidráulica não
era sua favorita, assim como a picape não era sua. Em meio ao estrondoso
barulho da chuva e a buzina do caminhão, tentou ser guiado apenas por seu
instinto, ainda que desfavorável. Cientemente foi tirando o pé do acelerador e
indo para o lado contrário da curva, até onde conseguiria enxergar a cabine do
caminhão pelo retrovisor e finalmente poderia freiar bruscamente e tentar trazer
o carro de volta á pista. Mas o caminhão tinha dois eixos e Keith Mcormick,
ansioso pelo reinicio de sua nova vida, tinha esquecido de verificar o sistema
pneumático dos freios pela primeira vez.. O vazamento de uma das válvulas foi o
suficiente para comprometer todo o andamento de seu planejado último percurso.
-
Fuck!!!!- Keith estremeceu com seu próprio grito e começou a perder o controle
do caminhão. O que seguiu foi uma dança rápida e dilacerante dos dois carros. A
neve ainda sendo derretida pela chuva favoreceu para que a picape de Anthony
escorrega-se antes de conseguir trazer o carro de volta à pista. Ele ameaçou
girar três vezes, entre a pista e barragem do outro lado, ,já não conseguindo
mais distinguir em que direção estava, firmava-se a direção e esperava atingir,
pelo menos, as pequenas paredes de concreto que dividiam a pista. Mas o
caminhão foi o que bateu primeiro nas divisórias. Com o impacto, Keith teve seu
corpo deslocado bruscamente contra a janela, sendo trazido de volta pelo cinto
de segurança que o pendurava em seu assento. Os estilhaços de vidro já tinham lhe
perfurado todo, antes mesmo que ele pudesse sentir seu corpo ser esmagado pela
própria cabine do caminhão, que continuava a andar por entre o concreto e o
canteiro do meio da pista. Anthony não via mais nada á essa altura. A sua
picape finalmente parara de girar e estacionava logo abaixo das rodas
dianteiras do caminhão.
Cinco longos segundos. Antes, Anthony olhou
mais uma vez para a cruz, que já não balançava mais, e finalmente entendeu
tudo.
Deitado, com os olhos fechados, fixos ao teto,
ele frequentemente sonhava com o mesmo sonho.
Nas noites de frio no entanto, mesmo com seus
olhos ainda fechados, Tony sabia que era ela puxando o cobertor até seu pescoço
suado. Mentalmente ele a visualizava deixando o quarto ,falando alguma coisa
que ele não conseguia entender, fechando a porta e partindo...todas as noites.
Na madrugada
de 11 de janeiro Tony lentamente despertou. Com o rosto encharcado, como de
costume àquela hora da noite,sentindo-se mais leve, fraco e imobilizado. Tony sentiu
sua respiração de novo. Ele virou o rosto em direção à janela e viu a constante
e fina neve que caìa lá fora, proporcionando ainda a ilusão de que o acidente
ocorrera apenas algumas horas atrás. Tentou levantar o braço pra alcançar o
parapeito da janela e sentiu que não podia, aquele não era seu quarto, havia
outras duas camas, na altura e estilo da dele, as paredes eram brancas sem
nenhum cartaz ou risco. Os sentidos voltavam lentamente, ruídos de aparelhos e
vozes que viam de outros lugares, sons de elevadores,portas se abrindo e
fechando,roncos de motores,buzinas,sirenes...
Na cama ao
seu lado havia um homem perto dos seus 50 anos, o observando. Com um sorriso
preparado no rosto disse:
- Isso que eu
chamo de sono,Tony.
Ele escutou,
mas não conseguia responder. O sufoco constante parecia ter engolido sua
língua,assim como qualquer outro som que pudesse sair de sua boca. Seu cérebro
no entanto, funcionava incontrolavelmente, em disparada. Ele entendeu onde
estava.
-Não precisa
falar nada agora. –O homem ainda calmamente disse- Eu estou aqui quase há tanto
tempo quanto você. Quando Sarah veio lhe visitar, na única vez que pôde ( houve
um mero desdenho e ironia na observação) , ela me disse que sabia que um dia
você iria acordar. O que me motivou ainda mais a esperar por esse momento – ele
virou-se para erguer o colchão da cabeceira suficiente para puxar um maço de
papéis debaixo dele, deixando –os numa coffee table entre as duas camas.
- Ela disse
que você saberia o que são. Bastaria eu ler algumas páginas pra você. Tem uma
aqui que inclusive vou pegar pra mim, espero que não se importe. Ah, mas eu vou
ler essa pra você também. Bem quando espero que lembre quem eu sou.
O silêncio
daquela depressão gelada nos anos em que passara na Europa permitiu a Anthony
certa evolução de seus sentidos. As palavras de seu colega de quarto estouravam
em seus ouvidos da mesma forma com que foram intencionadas. O perigo fora
sentido antes mesmo de Anthony poder lembrar como era, ao menos senti-lo. Mas
não havia tempo para isso agora, e ele sabia. Precisava das páginas, depois...
Teria de fugir do hospital.
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