terça-feira, 8 de outubro de 2013

Livro Da Vida - Segunda Parte.

27 de outubro-2006, Dublin-Irlanda.
“...Em um dia, parece ter chovido mais que em todo um mês de inverno no Brasil. Quando cheguei aqui no hostel, estava encharcado e puto comigo mesmo já no primeiro momento. Menos mal que investi certo nessa mochila à prova d´água, minha primeira aquisição do ocidente.
O MADPACKERS hostel é localizado bem no coração da capital Irlandesa. Aos seus arredores há enormes mercados, lojas de conveniência, prédios residenciais, pubs e outros tantos albergues. A estação de ônibus, assim como a estação de trem são a poucos minutos daqui, e taxis...Bem,taxis são parte da cultura Irlandesa..estão absolutamente em todos os lugares. trafegando na cidade continuadamente, como se patrulhassem as ruas de Dublin. Não procurei por detalhes estatísticos ainda a respeito mas, eu poderia garantir que há pelo menos um taxi para cada cinco pessoas em Dublin.
Eu divido, no momento, o quarto com outras seis pessoas, sendo que há ao todo doze camas-beliche. Eu durmo na parte de baixo de um deles, as camas são todas numeradas com um travesseiro mole e um cobertor e lençol. O enorme aquecedor na parede já respondeu por todas as duvidas que tinha sobre a calefação nos países europeus. Eu acredito que agora lá fora esteja uns 5 graus mas a sensação aqui dentro do quarto é de no mínimo 25. Há pouco tempo atrás, um de meus “roomates” levantou-se apressadamente e despiu-se toda. Não tive tanta sorte de ver muito, pois a luz está apagada, mas ela estava ali, à minha frente, completamente nua. Uma naturalidade incompreensível por mim e acredito que por muitos ainda. Ela tirou toda a roupa, inclinou-se em direção ao “nosso” beliche e dobrou seus joelhos ficando em posição quase de súplica, botou suas roupas pra baixo da minha cama e lentamente subiu os três degraus de madeira até a cama acima da minha.
Como um bom Brasileiro, inicialmente  pensei que poderia ser um daqueles insinuantes convites, mas à medida que eu mexia na cama e levantava acintosamente para lhe chamar a atenção, descobri que a menina roncava no momento em que subira a escada e encostara a cabeça de volta ao travesseiro. Malditas europeias.
Na recepção do hostel, dois atendentes do turno da noite me chamaram a atenção. Miriam e Thomaz. A menina holandesa é muito atraente e esbanja energia no atendimento e na sua prestatividade  ( provavelmente vou lembrar dela antes de dormir) .O homem ( Acredito que russo)nos seus 30 anos de idade, é rude, seco. Desmotivado talvez pela sua aparência de sobrevivente de guerra, ele não faz questão nenhuma de ao menos olhar nos olhos dos hóspedes...com minha exceção. Parece me perseguir.
 Os seus olhos parecem ser cheios de ira e desconfiança. Ele me fitou e perguntou quanto tempo eu planejava ficar, respondi ironicamente que talvez uma vida inteira. Não houve sinal de satisfação por parte dele, nem humor. Já arrumei um “fã”, perfeito. Quando eu instalar meus interesses aqui, ele vai ser o primeiro a quem vou ensinar boas maneiras.
 Muito descontraída, Miriam foi a que sorriu e disse:
- E você é do Brasil. Isso? Planejando viver uma vida inteira na Irlanda com todo o calor que você tem em casa? Hahahaha! Voce só deve estar maluco.
Ela pegou meu passaporte e assentiu à fotografia de quase oito centímetros da segunda página.
- Ops... Com uma foto desse tamanho, não seria fácil,  pra vocês brasileiros falsificarem se quisessem ein?
- Eu diria que, no mundo em que vivemos, tudo é possível. – então sorri de volta a ela, aproveitando-me do seu sarcasmo. Safada...

O andar de baixo é subterrâneo, assim como 90 por centro da Europa. É dividido por um corredor longo de “lockers” , que são gaiolas de ferro divididas ,uma por uma, por cercas de arame de aço em quadrados finíssimos, onde os hóspedes deixam suas mochilas,bagagens e pertences .E,até o ponto mais quente do saguão, há um outro corredor longo á esquerda, acompanhando até o final da sala, com mesas, cadeiras e sempre muita gente. À esquerda no final desse corredor há grandes, enormes sofás e uma TV grande o suficiente para a sala. Uma mesa de snooker de uma lado, uma mesa de ping-pong do outro e finalmente...uma máquina de cerveja enlatada.
Na Irlanda há uma lei muito severa sobre a compra de álcool em super- mercados e off-licenses ( que são sempre ou parte separada de um mercado ou um estabelecimento especializado quase ou somente de bebidas alcoólicas ). Pode-se ser adquirido somente até ás 22 horas. Nem um minuto sequer a mais.
Esse final de tarde quando cheguei, bem em frente á porta de entrada do hostel, haviam cinco pessoas completamente tomadas pela mágica força do amigo álcool. Não fosse meu ceticismo por lendas e,pelo fato de que não eram anões, com certeza acreditaria também em duendes. Todas elas estavam vestidas em verde, os três homens com chapeis pontudos com trevos de quatro folas espalhados da ponta ás abas, e bundas de plástico escrito em Gaelic “ BEIJE MINHA BUNDA”  . As mulheres em sapatos e botas verdes, bolsas e justas camisas com dizeres “ ME BEIJE, SOU IRLANDESA”. Todos falavam alto, ao mesmo tempo. Os copos de plástico balançando em uma frenética dança de gestos, as garrafas de Smirnoff e Baccardi  ao chão, enroladas em sacos de papel. Passei por eles, me olharam e assentiram erguendo os copos. Mais tarde eu iria conhecer todos eles...
Sobre isso eu pretendo escrever amanhã, porque, finalmente a banda marcial de roncos cessou. Com sorte, dormirei três horas antes que venham o pessoal da limpeza aos quartos.
Eu paguei por três noites e aqui estou, minhas expectativas estão mesmo voltadas ao dia de amanha, que é quando tudo para mim começa.”


As páginas deixadas à Tony era trechos do que ele e, do que todas as pessoas que ele encontrava, escreviam em seu chamado Livro da vida. Era tachado por ele mesmo como uma versão aberta e moderna de uma espécie de diário, onde todos poderiam ler e compartilhar experiências. Antes de durmir, ou enquanto sentia os ares frios de Bray, Anthony sempre escrevia. E quando não se era possível, imaginava em silêncio o que poderia ser escrito.Na opinião de Tony, o que era vivido, era para ser de alguma forma compartilhado, assim como o que era escrito era para ser armazenado e  também para sempre ser lembrado .- “Nós todos somos monstros, poetas, pensadores, cientistas. A diferença entre muitos dos anônimos gênios e demônios de hoje, para Aristóteles, Einstein e Hitler, é que na época existiam valores, pecados,indecência e a crueldade era mais explícita. O simples fato de pensar já seria condenado. Hoje, quando pensar e manifestar-se diante do que acredita é permitido, ninguém mais se importa. No fim então, pensar no futuro já não vale nada”.

Das pessoas que Anthony conhecia, ele escrevia a respeito. Se uma história fosse contada, ele iria pedir “permissão” para ser ,por ele mesmo, escrita. Então ele adaptaria para uma breve história, diálogo, comentário ou até, música sua. A forma com que os textos eram escritos eram sempre diferentes mas ele nunca deixava perder em palavras o que deveria ser deixado. Em várias páginas, do maço que Tony carregava com ele ao redor do mundo, liam-se trechos de histórias verdadeiras, significativas. De pessoas reais, do mundo real. As páginas, não eram apenas a prova, mas também a certeza de que a vida sempre continua, igual aos filmes e contos, mas que os fatos e personagens mudam a cada segundo, sem rumo ou plano.
Em meio ás páginas soltas, havia diversos cartões postais, selos,tickets concertos de bandas de rock, festivais, de ônibus, trem, excursões,e muitos papéis de chocolate e de cigarro...da Europa inteira.Haviam também diversas folhas de revistas e recortes de jornais e, em um desses, a notícia que mais percorreu o mundo nos últimos anos.
Nas capas do “Irish Daily Mail” e “Independent” de Dublin, a capa era a mesma. Uma gigante placa de pó branco espalhado por toda a estrada, misturando-se com a neve, fazendo parecer cem vezes maior de quanto realmente era. O caminhão parado de lado no meio e a picape de Anthony capotada no acostamento, coberta por quase cem kilos de cocaína, pura. Os dizerem eram “ You Finally got f....!” ( Você finalmente se Fo...!). Nos tabloides, a foto era a de Anthony inconsciente ainda dentro do carro, com as palavras “ You Are Dead  now, finally!” No jornal Herald a matéria das primeiras páginas foi escrita pelo jornalista Connor O´Brien, o homem que perseguia por quase quatro anos a quadrilha mais procurada na Europa.
“ Nessa madrugada de 23 de Dezembro, o maior presente de Natal de toda uma nação foi dado antecipadamente. Um dos maiores traficantes do mundo foi pego em um acidente fatal em provável fuga de Dublin, espalhando por toda a avenida um inacreditável volume de cocaína a serem distribuídos ao resto do mundo. Droga que vinha ( digamos agora assim) instalando-se como parte da nossa cultura, destruindo a vida de milhares de jovens Irlandeses.
 A picape foi arremessada para fora da pista por um caminhão que vinha trafegando normalmente na pista contrária, o motorista do caminhão, O querido dubliner Keith Mccormick ( havia uma foto de quando foi escolhido melhor empregado do ano), morreu na hora. O carro do suspeito girou várias vezes antes de colidir com as rodas dianteiras do caminhão.  O motorista da picape era um dos mais procurados pela Interpol, Guarda e a polícia de pelo menos outros nove países da união europeia. Adrien lacroiux, “the frog”, como era chamado por nós da imprensa, era o maior traficante em escala mundial que já se pôde ouvir nessa ultima década. Foram anos, estabelecido e vivendo em harmonia em Dublin,sobre os olhos de todos nós, nunca havia sido pego. Brincou com nossa polícia, como se fossem muppets. Os controlou, assim como controlou as nossas crianças, jovens, famílias. Condenando todo o país a morte precoce.
Mas então veio a força maior ,que parecia ter abandonado seu povo e nos deu a chance de ainda em vida, ver um demônio e parte de sua obra serem destruídas. O corpo de Lacrouix ainda não havia sido retirado do carro antes do fechamento da matéria. Muito cuidado está sendo tomado na remoção da droga e de algum possível armamento escondidos na picape. As ferragens ainda estavam sendo lentamente removidas e explosivos estavam também sendo procurados. Felizmente, para todos nós e aqueles que já perderam entes queridos por culpa das drogas, de acordo com os paramédicos, não há possibilidade nenhuma de vida para ele....”

Nem que fosse passados cinquenta anos o olhar especulativo de Anthony desapareceria. Não havia interesse nenhum em piscar quaisquer uns dos olhos, eram vivos e fixos. Como se encarasse um fantasma, o homem ainda segurando uma das folhas na mão, concentrava-se também em seu olhar. “ Dois anos. E o filho da puta não mostra nenhum sinal de medo.”
- Tony, certo? Esse é a forma que lhe chamam?
Anthony assentiu com a cabeça. Pronunciando ao mesmo tempo algumas palavras embaralhadas, deixando “friends” como a única realmente nítida.
- Amigos? Hahaha. Entendi. Amigos o chamam assim?
Ele esperou Tony assentir novamente e continuou.- Hehe, certo. Desculpe Tony, me chame de Carl. Infelizmente fomos apresentados só agora.
Carl estava com o maço de papéis na mão, selecionando as páginas. Pegou uma e levantou da cama, parecendo saudavelmente perfeito. Recostou-se na mesinha ao lado da cabeceira de Anthony, e afastou a cortina  que cobria o resto da visão sobre a cama . Olhando para Anthony debilitado, Carl sorriu e disse:
- Uma pena também eu ter de lhe dar más notícias na primeira vez que nos encontramos pessoalmente.  Os olhos agora aflitos de Anthony seguiram Carl, enquanto ele se dirigia ao armário do quarto. De lá retirou um casaco de lã, onde escondia em um dos bolsos uma seringa preenchida com um líquido branco-escuro.
-Uma pena maior ainda, é você não lembrar de mim Anthony. Não sou seu amigo.


Tudo tinha sido ensaiado, Anthony fora o tempo todo o principal coadjuvante do circo que já existia , mas que nem mesmo sabia a respeito. “Adrien...” E automaticamente, as memórias ao pronunciar silenciosamente para si mesmo, o nome de seu “Irmão Francês”, vieram rápido e cortantes. Carl continuava lendo as páginas, desta vez mais rápido e pulando partes, sempre rindo sarcasticamente cada vez que pegava uma outra. Já havia lido todas elas, sabia da suposta troca de pessoas feitas pela imprensa. Tony  não demonstrava nenhum sinal de desespero ou espanto, apenas duas coisas continuavam em seu foco agora: A seringa ,que balançava com as palavras de seus próprios textos, nervosamente a poucos centímetros dele e na forma que ela teria de fazer para sair dali. Mas isso ele já sabia como, ele foi mesmo preparado para o espetáculo.

 O seu corpo na cama continuava da mesma forma em que fora posto logo após o acidente, há quase dois anos atrás.
 Lembrava de si mesmo agora, lembrava do acidente ter mesmo acontecido mas não reconhecia a droga escondida no carro. Um pensamento atraía o outro rapidamente. Quando Carl disse o nome dela, Anthony não lembrava de tê-lo mesmo o escutado. O seu nome vinha de dentro dele agora e a imagem destorcida dela em seus sonhos já não era mais despercebida pelos efeitos do coma. A necessidade de falar o nome dela lhe percorreu todo o caminho do estomago até sua garganta, fazendo todos os seus órgãos vitais tremerem e contraírem, até ser finalmente expelido. A imagem boa de Sarah havia sido apenas fragmentos de parte do que sonhava.  Estava associada também a seu maior pesadelo, mas ela sumia com frequência, perdendo o foco, desvanecendo e transformando-se apenas em escuridão à seus olhos. Havia, entretanto, o motivo pelo qual acordara, e Anthony sabia que sempre fora ela.

Absolutamente tudo transcorrera de errado. Precisava agora encontrá-la,ela corria perigo. Precisava de toda e qualquer memória de volta.

Parecendo seguro, Tony ergueu lentamente o braço direito e removeu a máscara que lhe transmitia oxigênio e, com um longo suspiro sentiu seus pulmões serem realmente preenchidos de oxigênio “puro” de novo. O fez outras tantas vezes, rapidamente, com o propósito óbvio de sentir vida circular, que não fosse por iniciativa de máquinas. Através do nivelamento do lençol que o cobria, era possível notar uma significante perca de peso também. Anthony sentia dores agora que antes não eram percebidas por seu inconsciente, tentando distrair-se delas,mentalmente ele concentrava-se em sentir tudo apropriadamente, braços e pernas continuavam paralisados. Iniciava-se o processo de controle do pânico. "Se você conseguir ter você mesmo sobre controle, quando certamente não é mais possível, então você poderá mudar tudo. Não só o resultado de uma ação, mas tudo. Inclusive você mesmo." Anthony acalmava sua interna e incontrolável angústia com ações psíquicas rápidas, enquanto meditava forças em alongamentos de seus músculos e nervos. Ele precisaria sentir o sangue puncionar mais forte e acompanhar a tensão que aumentava.
 Procurava sentir todas as agulhas, onde estariam o espetando, quais lugares pareciam doer se os tentassem mexer... A língua, ainda anestesiada e recompondo-se da morbidade, deslizava a procura de dentes ainda em sua boca, os dedos dos pés por sua vez, mexiam nervosamente em busca de cada um deles mesmos. Anthony olhou para Carl vindo em sua direção e fez o sinal de positivo com o polegar direito curvado, do mesmo jeito que o filho morto de seu colega de quarto de hospital, Charles Anderson ,fazia.


Anthony lembrou quem Carl era.  Mais uma vez, ele não teria escolha.

Nenhum comentário:

Postar um comentário