27 de outubro-2006, Dublin-Irlanda.
“...Em
um dia, parece ter chovido mais que em todo um mês de inverno no Brasil. Quando
cheguei aqui no hostel, estava encharcado e puto comigo mesmo já no primeiro
momento. Menos mal que investi certo nessa mochila à prova d´água, minha
primeira aquisição do ocidente.
O
MADPACKERS hostel é localizado bem no coração da capital Irlandesa. Aos seus
arredores há enormes mercados, lojas de conveniência, prédios residenciais,
pubs e outros tantos albergues. A estação de ônibus, assim como a estação de
trem são a poucos minutos daqui, e taxis...Bem,taxis são parte da cultura
Irlandesa..estão absolutamente em todos os lugares. trafegando na cidade
continuadamente, como se patrulhassem as ruas de Dublin. Não procurei por
detalhes estatísticos ainda a respeito mas, eu poderia garantir que há pelo
menos um taxi para cada cinco pessoas em Dublin.
Eu
divido, no momento, o quarto com outras seis pessoas, sendo que há ao todo doze
camas-beliche. Eu durmo na parte de baixo de um deles, as camas são todas
numeradas com um travesseiro mole e um cobertor e lençol. O enorme aquecedor na
parede já respondeu por todas as duvidas que tinha sobre a calefação nos países
europeus. Eu acredito que agora lá fora esteja uns 5 graus mas a sensação aqui
dentro do quarto é de no mínimo 25. Há pouco tempo atrás, um de meus “roomates”
levantou-se apressadamente e despiu-se toda. Não tive tanta sorte de ver muito,
pois a luz está apagada, mas ela estava ali, à minha frente, completamente nua.
Uma naturalidade incompreensível por mim e acredito que por muitos ainda. Ela
tirou toda a roupa, inclinou-se em direção ao “nosso” beliche e dobrou seus
joelhos ficando em posição quase de súplica, botou suas roupas pra baixo da minha
cama e lentamente subiu os três degraus de madeira até a cama acima da minha.
Como
um bom Brasileiro, inicialmente pensei
que poderia ser um daqueles insinuantes convites, mas à medida que eu mexia na
cama e levantava acintosamente para lhe chamar a atenção, descobri que a menina
roncava no momento em que subira a escada e encostara a cabeça de volta ao
travesseiro. Malditas europeias.
Na
recepção do hostel, dois atendentes do turno da noite me chamaram a atenção.
Miriam e Thomaz. A menina holandesa é muito atraente e esbanja energia no
atendimento e na sua prestatividade (
provavelmente vou lembrar dela antes de dormir) .O homem ( Acredito que russo)nos
seus 30 anos de idade, é rude, seco. Desmotivado talvez pela sua aparência de
sobrevivente de guerra, ele não faz questão nenhuma de ao menos olhar nos olhos
dos hóspedes...com minha exceção. Parece me perseguir.
Os seus olhos parecem ser cheios de ira e desconfiança.
Ele me fitou e perguntou quanto tempo eu planejava ficar, respondi ironicamente
que talvez uma vida inteira. Não houve sinal de satisfação por parte dele, nem
humor. Já arrumei um “fã”, perfeito. Quando eu instalar meus interesses aqui,
ele vai ser o primeiro a quem vou ensinar boas maneiras.
Muito descontraída, Miriam foi a que sorriu e
disse:
- E
você é do Brasil. Isso? Planejando viver uma vida inteira na Irlanda com todo o
calor que você tem em casa? Hahahaha! Voce só deve estar maluco.
Ela
pegou meu passaporte e assentiu à fotografia de quase oito centímetros da
segunda página.
-
Ops... Com uma foto desse tamanho, não seria fácil, pra vocês brasileiros falsificarem se
quisessem ein?
- Eu
diria que, no mundo em que vivemos, tudo é possível. – então sorri de volta a
ela, aproveitando-me do seu sarcasmo. Safada...
O
andar de baixo é subterrâneo, assim como 90 por centro da Europa. É dividido
por um corredor longo de “lockers” , que são gaiolas de ferro divididas ,uma
por uma, por cercas de arame de aço em quadrados finíssimos, onde os hóspedes
deixam suas mochilas,bagagens e pertences .E,até o ponto mais quente do saguão,
há um outro corredor longo á esquerda, acompanhando até o final da sala, com
mesas, cadeiras e sempre muita gente. À esquerda no final desse corredor há
grandes, enormes sofás e uma TV grande o suficiente para a sala. Uma mesa de
snooker de uma lado, uma mesa de ping-pong do outro e finalmente...uma máquina
de cerveja enlatada.
Na
Irlanda há uma lei muito severa sobre a compra de álcool em super- mercados e
off-licenses ( que são sempre ou parte separada de um mercado ou um
estabelecimento especializado quase ou somente de bebidas alcoólicas ). Pode-se
ser adquirido somente até ás 22 horas. Nem um minuto sequer a mais.
Esse final
de tarde quando cheguei, bem em frente á porta de entrada do hostel, haviam
cinco pessoas completamente tomadas pela mágica força do amigo álcool. Não
fosse meu ceticismo por lendas e,pelo fato de que não eram anões, com certeza
acreditaria também em duendes. Todas elas estavam vestidas em verde, os três
homens com chapeis pontudos com trevos de quatro folas espalhados da ponta ás
abas, e bundas de plástico escrito em Gaelic “ BEIJE MINHA BUNDA” . As mulheres em sapatos e botas verdes,
bolsas e justas camisas com dizeres “ ME BEIJE, SOU IRLANDESA”. Todos falavam
alto, ao mesmo tempo. Os copos de plástico balançando em uma frenética dança de
gestos, as garrafas de Smirnoff e Baccardi ao chão, enroladas em sacos de papel. Passei
por eles, me olharam e assentiram erguendo os copos. Mais tarde eu iria
conhecer todos eles...
Sobre
isso eu pretendo escrever amanhã, porque, finalmente a banda marcial de roncos
cessou. Com sorte, dormirei três horas antes que venham o pessoal da limpeza
aos quartos.
Eu
paguei por três noites e aqui estou, minhas expectativas estão mesmo voltadas
ao dia de amanha, que é quando tudo para mim começa.”
As páginas deixadas à Tony era trechos do que ele e, do que
todas as pessoas que ele encontrava, escreviam em seu chamado Livro da vida.
Era tachado por ele mesmo como uma versão aberta e moderna de uma espécie de
diário, onde todos poderiam ler e compartilhar experiências. Antes de durmir,
ou enquanto sentia os ares frios de Bray, Anthony sempre escrevia. E quando não
se era possível, imaginava em silêncio o que poderia ser escrito.Na opinião de
Tony, o que era vivido, era para ser de alguma forma compartilhado, assim como
o que era escrito era para ser armazenado e
também para sempre ser lembrado .- “Nós todos somos monstros, poetas,
pensadores, cientistas. A diferença entre muitos dos anônimos gênios e demônios
de hoje, para Aristóteles, Einstein e Hitler, é que na época existiam valores,
pecados,indecência e a crueldade era mais explícita. O simples fato de pensar
já seria condenado. Hoje, quando pensar e manifestar-se diante do que acredita
é permitido, ninguém mais se importa. No fim então, pensar no futuro já não
vale nada”.
Das pessoas que Anthony conhecia, ele escrevia a respeito.
Se uma história fosse contada, ele iria pedir “permissão” para ser ,por ele
mesmo, escrita. Então ele adaptaria para uma breve história, diálogo,
comentário ou até, música sua. A forma com que os textos eram escritos eram
sempre diferentes mas ele nunca deixava perder em palavras o que deveria ser
deixado. Em várias páginas, do maço que Tony carregava com ele ao redor do
mundo, liam-se trechos de histórias verdadeiras, significativas. De pessoas
reais, do mundo real. As páginas, não eram apenas a prova, mas também a certeza
de que a vida sempre continua, igual aos filmes e contos, mas que os fatos e
personagens mudam a cada segundo, sem rumo ou plano.
Em meio ás páginas soltas, havia diversos cartões postais,
selos,tickets concertos de bandas de rock, festivais, de ônibus, trem,
excursões,e muitos papéis de chocolate e de cigarro...da Europa inteira.Haviam
também diversas folhas de revistas e recortes de jornais e, em um desses, a
notícia que mais percorreu o mundo nos últimos anos.
Nas capas do “Irish Daily Mail” e “Independent” de Dublin, a
capa era a mesma. Uma gigante placa de pó branco espalhado por toda a estrada,
misturando-se com a neve, fazendo parecer cem vezes maior de quanto realmente
era. O caminhão parado de lado no meio e a picape de Anthony capotada no
acostamento, coberta por quase cem kilos de cocaína, pura. Os dizerem eram “
You Finally got f....!” ( Você finalmente se Fo...!). Nos tabloides, a foto era
a de Anthony inconsciente ainda dentro do carro, com as palavras “ You Are
Dead now, finally!” No jornal Herald a
matéria das primeiras páginas foi escrita pelo jornalista Connor O´Brien, o
homem que perseguia por quase quatro anos a quadrilha mais procurada na Europa.
“ Nessa madrugada de 23 de Dezembro, o maior presente de
Natal de toda uma nação foi dado antecipadamente. Um dos maiores traficantes do
mundo foi pego em um acidente fatal em provável fuga de Dublin, espalhando por
toda a avenida um inacreditável volume de cocaína a serem distribuídos ao resto
do mundo. Droga que vinha ( digamos agora assim) instalando-se como parte da
nossa cultura, destruindo a vida de milhares de jovens Irlandeses.
A picape foi
arremessada para fora da pista por um caminhão que vinha trafegando normalmente
na pista contrária, o motorista do caminhão, O querido dubliner Keith Mccormick
( havia uma foto de quando foi escolhido melhor empregado do ano), morreu na
hora. O carro do suspeito girou várias vezes antes de colidir com as rodas
dianteiras do caminhão. O motorista da
picape era um dos mais procurados pela Interpol, Guarda e a polícia de pelo
menos outros nove países da união europeia. Adrien lacroiux, “the frog”, como
era chamado por nós da imprensa, era o maior traficante em escala mundial que
já se pôde ouvir nessa ultima década. Foram anos, estabelecido e vivendo em
harmonia em Dublin,sobre os olhos de todos nós, nunca havia sido pego. Brincou
com nossa polícia, como se fossem muppets. Os controlou, assim como controlou as
nossas crianças, jovens, famílias. Condenando todo o país a morte precoce.
Mas então veio a força maior ,que parecia ter abandonado seu
povo e nos deu a chance de ainda em vida, ver um demônio e parte de sua obra
serem destruídas. O corpo de Lacrouix ainda não havia sido retirado do carro
antes do fechamento da matéria. Muito cuidado está sendo tomado na remoção da
droga e de algum possível armamento escondidos na picape. As ferragens ainda
estavam sendo lentamente removidas e explosivos estavam também sendo
procurados. Felizmente, para todos nós e aqueles que já perderam entes queridos
por culpa das drogas, de acordo com os paramédicos, não há possibilidade
nenhuma de vida para ele....”
Nem que fosse passados cinquenta anos o olhar especulativo
de Anthony desapareceria. Não havia interesse nenhum em piscar quaisquer uns
dos olhos, eram vivos e fixos. Como se encarasse um fantasma, o homem ainda
segurando uma das folhas na mão, concentrava-se também em seu olhar. “ Dois
anos. E o filho da puta não mostra nenhum sinal de medo.”
- Tony, certo? Esse é a forma que lhe chamam?
Anthony assentiu com a cabeça. Pronunciando ao mesmo tempo
algumas palavras embaralhadas, deixando “friends” como a única realmente
nítida.
- Amigos? Hahaha. Entendi. Amigos o chamam assim?
Ele esperou Tony assentir novamente e continuou.- Hehe,
certo. Desculpe Tony, me chame de Carl. Infelizmente fomos apresentados só
agora.
Carl estava com o maço de papéis na mão, selecionando as
páginas. Pegou uma e levantou da cama, parecendo saudavelmente perfeito. Recostou-se
na mesinha ao lado da cabeceira de Anthony, e afastou a cortina que cobria o resto da visão sobre a cama . Olhando
para Anthony debilitado, Carl sorriu e disse:
- Uma pena também eu ter de lhe dar más notícias na primeira
vez que nos encontramos pessoalmente. Os
olhos agora aflitos de Anthony seguiram Carl, enquanto ele se dirigia ao armário
do quarto. De lá retirou um casaco de lã, onde escondia em um dos bolsos uma
seringa preenchida com um líquido branco-escuro.
-Uma pena maior ainda, é você não lembrar de mim Anthony.
Não sou seu amigo.
Tudo tinha sido ensaiado, Anthony fora o tempo todo o
principal coadjuvante do circo que já existia , mas que nem mesmo sabia a
respeito. “Adrien...” E automaticamente, as memórias ao pronunciar
silenciosamente para si mesmo, o nome de seu “Irmão Francês”, vieram rápido e
cortantes. Carl continuava lendo as páginas, desta vez mais rápido e pulando
partes, sempre rindo sarcasticamente cada vez que pegava uma outra. Já havia
lido todas elas, sabia da suposta troca de pessoas feitas pela imprensa. Tony não demonstrava nenhum sinal de desespero ou
espanto, apenas duas coisas continuavam em seu foco agora: A seringa ,que
balançava com as palavras de seus próprios textos, nervosamente a poucos
centímetros dele e na forma que ela teria de fazer para sair dali. Mas isso ele
já sabia como, ele foi mesmo preparado para o espetáculo.
O seu corpo na cama
continuava da mesma forma em que fora posto logo após o acidente, há quase dois
anos atrás.
Lembrava de si mesmo
agora, lembrava do acidente ter mesmo acontecido mas não reconhecia a droga
escondida no carro. Um pensamento atraía o outro rapidamente. Quando Carl disse
o nome dela, Anthony não lembrava de tê-lo mesmo o escutado. O seu nome vinha
de dentro dele agora e a imagem destorcida dela em seus sonhos já não era mais
despercebida pelos efeitos do coma. A necessidade de falar o nome dela lhe percorreu
todo o caminho do estomago até sua garganta, fazendo todos os seus órgãos
vitais tremerem e contraírem, até ser finalmente expelido. A imagem boa de
Sarah havia sido apenas fragmentos de parte do que sonhava. Estava associada também a seu maior pesadelo, mas
ela sumia com frequência, perdendo o foco, desvanecendo e transformando-se
apenas em escuridão à seus olhos. Havia, entretanto, o motivo pelo qual
acordara, e Anthony sabia que sempre fora ela.
Absolutamente tudo transcorrera de errado. Precisava agora
encontrá-la,ela corria perigo. Precisava de toda e qualquer memória de volta.
Parecendo seguro, Tony ergueu lentamente o braço direito e removeu
a máscara que lhe transmitia oxigênio e, com um longo suspiro sentiu seus
pulmões serem realmente preenchidos de oxigênio “puro” de novo. O fez outras
tantas vezes, rapidamente, com o propósito óbvio de sentir vida circular, que
não fosse por iniciativa de máquinas. Através do nivelamento do lençol que o
cobria, era possível notar uma significante perca de peso também. Anthony
sentia dores agora que antes não eram percebidas por seu inconsciente, tentando
distrair-se delas,mentalmente ele concentrava-se em sentir tudo
apropriadamente, braços e pernas continuavam paralisados. Iniciava-se o processo
de controle do pânico. "Se você conseguir
ter você mesmo sobre controle, quando certamente não é mais possível, então
você poderá mudar tudo. Não só o resultado de uma ação, mas tudo. Inclusive
você mesmo." Anthony acalmava sua interna e incontrolável angústia
com ações psíquicas rápidas, enquanto meditava forças em alongamentos de seus
músculos e nervos. Ele precisaria sentir o sangue puncionar mais forte e acompanhar
a tensão que aumentava.
Procurava sentir
todas as agulhas, onde estariam o espetando, quais lugares pareciam doer se os
tentassem mexer... A língua, ainda anestesiada e recompondo-se da morbidade,
deslizava a procura de dentes ainda em sua boca, os dedos dos pés por sua vez,
mexiam nervosamente em busca de cada um deles mesmos. Anthony olhou para Carl
vindo em sua direção e fez o sinal de positivo com o polegar direito curvado,
do mesmo jeito que o filho morto de seu colega de quarto de hospital, Charles
Anderson ,fazia.
Anthony lembrou quem Carl era. Mais uma vez, ele não teria escolha.